quinta-feira, 7 de maio de 2009

O dia que ela conheceu a vida



Era dia, e ela não se importava se era manhã, tarde ou noite era tudo questão de cor.

As letras vermelhas do relógio marcavam 09:00h, é era manhã - mas naquele momento isso não fazia nenhuma diferença na sua vida - se levantou sentiu o piso gelado sob os pés foi em direção a varanda e olhou sem ver nada, foi para o banheiro fazer aquele mesmo ritual de higiene de toda manhã.
Saiu do banho olhou o espelho embaçado que era incapaz de refletir seu rosto hoje definitivamente não era seu dia de ver.Passou pela sala ainda pingando aquela água com cheiro de sabonete, aquelas poças de água formavam um rastro por toda a casa até chegar a cozinha , ela parecia ter feito de propósito para alguém poder acha - lá, e o silêncio ecoou em meio as colheres, xícaras, garfos e eletrodomésticos a falta de vontade de mexer em tudo aquilo não deixou que ela desse mais nenhum passo, saiu dali deixando uma poça ainda maior e formando outro rastro de gotas cheirosas esse agora levava ao quarto, nesse já não tinha poça usou a toalha para o que ela serve e a jogou sobre a cama abriu a gaveta e procurou alguma calcinha em tom pastel - é ela não tinha nenhuma - então pegou qualquer uma , que diferença fazia ninguém ia ver mesmo, pegou um jeans, uma blusa branca e um all-star pronto poderia ir a qualquer lugar assim, pegou a primeira bolsa que viu no cabideiro e jogou tudo que precisava lá dentro carteira e.... E mas nada por hoje isso já era mais que o necessário, voltou a sala travou uma luta com os objetos até achar a chave que se escondia em baixo de uma almofada no sofá.
Abriu a porta olhou o silêncio - sim o silêncio ali tinha forma - desceu as escada, mesmo sendo oito andares era melhor do que ter que esbarrar com algum conhecido no elevador e ter que explicar porque ela estava com aquela cara de nada - estava ou tinha? ela não sabe –
Na metade do caminho lembrou, não tinha penteado o cabelo ou tinha? e foi recapitulando desodorante, perfume, roupa e pente? É nada de pente, bom melhor esquecer o pente do que a roupa neh - continuou seu caminho.
Mas pra onde mesmo ela tava indo ? Ta ai ela não tinha pensado, no caminho se descobre. Então vamos em frente, depois de andar por varias ruas viu um Café aberto - com se ela tivesse olho para outra coisa, hoje estava com a visão selectiva via uma única coisa o resto era como borrões - entrou sentou em qualquer lugar pediu um café e alguns daqueles pães de queijo que estavam com uma cara ótima, então a mocinha simpática que a atendeu perguntou...
-Mas alguma coisa?
-Você vende Paz? ( e disse isso como quem pergunta se tem açúcar)
-Não, ainda não temos.( disse sem perder a simpatia)

Pegou o açúcar colocou no café e comeu um pão de queijo, é estava realmente bom provou, o café estava um pouco amargo demais entretanto bebeu mesmo assim.
Se levantou foi em direção ao caixa, parou no caminho em frente a uma prateleira com diversos produtos - é a mocinha não me enganou eles ainda não vendem paz, tem chocolate acho que serve - foi ao caixa pagou pelo café, pão e saquinho de chocolates.
Voltou a rua, continuou sem direção andou, andou , andou até que avistou uma senhora sentada em um banco de praça que jogava pão aos pombos - ela também parecia alheia a tudo naquele dia, podia ser boa companhia - sentou ao seu lado e estendeu o saquinho de chocolate como se faz a um amigo.
-Quer um?
-Não, obrigada. É a diabetes sabe não me deixa comer essas coisas.
-Hum... sei como é.
E ficou ali sentada observando a senhora que em nenhum momento deixou de olhar os pombos e jogar as migalhas de pão,olhou cuidadosamente seus cabelos brancos, suas rugas de sorriso e sua linda bengala apoiada ao lado que pelo jeito devia ser feita de uma madeira muito boa, então a senhora se vira olha para o seu rosto e pergunta como se fossem velhas conhecidas que não se vêem a algum tempo.
-E então querida como anda a vida?
- Anda com as pernas e uma muleta, sabe como é depois de tantas topadas, baques e tombos ficam algumas sequelas.


Raissa D.

2 comentários:

  1. Criei coragem e li tudo.
    Desde o início uma palavra levava e outra que levava a outra que não sabia ao certo onde isso tudo iria levar.
    Até que num fim clássico e belo descobri:

    '-E então querida como anda a vida?
    - Anda com as pernas e uma muleta, sabe como é depois de tantas topadas, baques e tombos ficam algumas sequelas.'


    Muito bom mesmo.
    Gostei de mais.
    Beijão.
    =*

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  2. Sem muito o que dizer, o texto me encantou! ficou aquele gostinho de 'quero mais'

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